Os 10 Mais de 2011 (ou Não) (ou Pero No Mucho)

1.Foo Fighters – ‘Wasting Light’: O FF estava devendo um disco coeso e consistente desde ‘One by One’. Prejudicados, em parte, pelo entra e sai de músicos, ficaram dispersos no duplo ‘In Your Honor’, fizeram caldo de peteca com o ao vivo ‘Skin & Bones’ e ensaiaram voltar ao bom caminho com o enxuto ‘Echoes, Silence, Patience & Grace’. Mas estava escrito em algum lugar do grande livro do Rock’n’Roll que o pau ia cantar mesmo em ‘Wasting Light’. Até o time de convidados mete medo: Butch Vig (de ‘Nevermind’, ‘Siamese Dreams’ e outros clássicos dos 90′s) na produção, Lemmy (Motörhead), Bob Mould (Hüsker Dü/Sugar), Chris Novoselic (vocês sabem quem…), e a volta de Pat Smear. Da segunda música em diante você pode fechar os olhos e se sentir dentro de um clássico. Já na estrada, fizeram performance antológica, com chuva e tudo, no Lolapalooza em Chicago. Dave Grohl cada vez mais longe da sombra do Nirvana, e olhe que Butch Vig já avisou que o melhor fica pro disco de inéditas de 2012. Sério candidato a aparecer na lista do ano que vem então.

2.Beastie Boys – ‘Hot Souce Committee Two’: Essa jóia foi pra gaveta há quase dois anos quando Adam Yutch foi diagnosticado com câncer. Lá, guardadinha, ela só atingiu o tempo de maturar e virar jóia. Donos de um excelente bom gosto pra clipes, retomaram a tabelinha com o diretor Spike Jonze em “Make Some Noise’, com roteiro no melhor estilo SNL. Achou pouco? Levam a estatueta de parceria do ano ao dividirem o microfone com Santigold em “No Play No Game That I Can’t Win”, que de quebra ganhou o clipão aí.

3.Red Hot Chili Peppers – ‘I’m With You’: Se você é fã das antigas do quarteto vai perguntar “de novo?”. Se você é fã só do ‘Californication’ pra cá vai achar que a banda foi pro espaço sem John Frusciante . Nem tanto ao céu e nem tanto ao mar. O esquisitinho Josh Klinghoffer não é Frusciante, difinitivamente, mas a renovação que ele tráz à banda salta aos olhos. As qualidades de multiinstrumentista do rapaz foram exploradas sem pena, e junto ao reforço do catarinense Mario Refusco (que também toca no Atoms For Peace, do radiohead Thom Yorke e Flea) deram outras cores ao molho apimentado dos peppers. Sobrou até uma guitarrinha safada, com cara de Chimbinha, em “Did I Let You Know’. Pimentas chili ao tucupi!

4&5.Mogwai – ‘Hardcore Will Never Die But I Will’|’Earth Division’ : Vocês acharam mesmo que eu ia fazer dessa lista uma coisa séria? Com tanta banda ‘hype’ lixo por aí o post-rock virou o novo alternativo, e o Mogwai puxa o cordão. Em 2011 os escoceses mostraram fome de bola ao lançar o ep ‘Earth Division’ logo depois de pôr na praça ‘Hardcore Will Never Die But I Will’. Ambiências, climões ‘high & low’ e até músicas cantadas pra acabar com o que sobrou dos seus ouvidos em 2011.

6.Russian Circles – ‘Empros’: Toda banda com potencial chega no ‘disco do quase’. O Russian Circles estava uns dois discos no modo ‘quase’, daí acertou a mão nesse ‘Empros’. Bem mais pesados e bem mais viajandões, em doses iguais, acabaram assim desbancando ‘Take Care, Take Care, Take Care’ do Explosions In The Sky de estar aqui.

7.The Vaccines – ‘What Did You Expect From The Vaccines?’: podem até ser hype e sumirem em 2012, mas trouxeram de volta a energia, melodia e um humor sofisticado que o mundo perdeu com o fim dos Smiths. Exagero? Chame seus amigos pra uma festa na sua casa e aplique esse CD de ponta à ponta. Infalivelmente divertido.

8.Loutallica – ‘Lulu’: A primeira impressão que se tem ao ouvir ‘Lulu’ é que se está em uma sala, entre dois aparelhos gigantescos de som, onde um toca ‘Berlin’ e o outro ‘And Justice For All’, simultaneamente. Passada a confusão auditiva cai a ficha que estamos entre dois artistas consagrados que não tiveram medo de arriscar no passado (Reed com ‘Metal Machine Music’ e Metallica com ‘Load/Reload’) e que não se furtam a criar um frankenstein sonoro ao forçar seus limites.

9.Walverdes – ‘Breakdance’: Opa, mas esse saiu em 2010…No finalzinho de 2010, na verdade; e fez bonito mais que tudo nacional em 2011. Visceralidade, simplicidade e energia continuam sendo o prato do dia desses gaúchos. Um rodízio de melodias simples, guitarras pesadas e sofisticação zero. Se você procura o bom e velho rock de garagem, é tudo seu.

10.Eskimo – ‘Felicidade Interna Bruta’: quem conhece esse projeto do baixista Patrick Laplan (ex Los Hermanos, Rodox e ‘sideman’ de Biquini Cavadão, MV Bill e outros) acompanhou o ‘parto’ do disco via internet. Cavaquinhos e guitarras toscas, vocais infantis com pianos de calda em melodias sinistras, baixos funky e instrumentos eletrônicos de brinquedo. Nos próximos dez anos, no mínimo, “Felicidade Interna Bruta’ vai servir de padrão pra qualquer disco gravado por artista inovador no quarto de casa. A mixagem é algo tão bem costurado que chega a dar medo. Muitos, como eu, esperavam algo no ‘padrão IPECAP’ de qualidade, mas felizmente quebrei a cara. A colcha de retalhos ganhou vida e (muita) personalidade.

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Rock Cordel Theresina 2011

Forline http://www.myspace.com/forlineoficial

Hevora http://www.myspace.com/hevora

Sandro Moura http://palcomp3.com/slom

Dona Lili (CE) http://bandasdegaragem.uol.com.br/banda/donalili

André de Sousa & The Mojo Band http://youtu.be/5tI9cr42_1I

Aclive http://soundcloud.com/aclive

Retalhador http://www.myspace.com/retalhadorband

24.11 (qui)

A.F. Galvão http://youtu.be/m4yUZeX0fvI

Timbral (CE) http://youtu.be/I9Tq0WgzrFM

Megahertz http://www.myspace.com/megahertzband

Theregroove http://theregroove.blogspot.com

Növa http://myspace.com/noova

Fullreggae http://www.myspace.com/fullreggae

Obtus http://www.myspace.com/obtus

25.11 (sex)

Clínica Tobias Blues http://palcomp3.com/ctblues

Marlon & os Brandos http://www.myspace.com/marlonosbrandos

Validuaté http://www.myspace.com/validuate

Isaac Cândido & Os Bândidos (CE) http://www.myspace.com/isaaccandidomusica

Gramophone http://palcomp3.com/bandagramophone

Anno Zero http://www.annozero.com.br

Mr. Kapruk (CE) http://palcomp3.com/mrkapruk

MIke Soares http://www.myspace.com/mikesoaresgtr

26.11 (sab)

Amsterdan http://www.purevolume.com/amsterdanrock

Prowler http://www.ironcoverbrasil.com.br

Roque Moreira http://palcomp3.com/conjuntoroquemoreira

Khrystal (RN) http://www.myspace.com/khrystalmusica

Xico Vai http://youtu.be/z50IwcGb_bc

Radiofônicos http://www.rockwave.com.br/bandas/radiofonicos

Darkside (CE) http://www.myspace.com/darksidebrasil

Scrok (MA) http://www.myspace.com/scrok

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3 Vezes Dylan

I don’t believe in Zimmerman/I just believe in me
John Lennon, “God” – 1970

Enquanto existem artistas que passam a carreira inteira apoiados em um nincho, outros morrem e renascem dezenas de vezes, revalorizando seus nomes e repertórios. Bob Dylan, nascido Robert Zimmerman, numa pequena cidade de mineradores em Minessota, centro norte dos EUA, é uma dessas figuras que, como ele mesmo cantou, “não está ocupada nascendo/está ocupada morrendo”. Tantas saídas de cena e renascimentos renderam curiosidades e fatos pitorescos para enriquecer sua biografia enquanto homem que ajudou a mudar a face da cultura de massa nos últimos 50 anos no planeta Terra. Três biografias – uma não autorizada, uma semi autorizada e uma de próprio punho – atestam esse fato:

Dylan – A Biografia” (Howard Sounes): Lançada no Brasil pela Conrad Books, é uma biografia não autorizada, mas rica em detalhes e bastante minusciosa em seguir os passos de Dylan, de Dulluth, Minessota ao subúrbio de Tarzana, em Los Angeles, passando pelo Village em Nova Iorque, Woodstock, lugarejo no nordeste dos EUA e Big Sur, ao sul da Califórnia; lugares pra onde Dylan, sozinho ou não, migrou e fincou suas raízes por qualquer que tenha sido o espaço de tempo. Sem vínculos com a persona, não poupa detalhes que poderiam parecer escabrosos, como o acidente de moto em 67 que tirou Dylan de circulação por quase dois anos, ou detalhando episódios de turnês e fatos referentes à separação de Dylan e Sarah, chegando mesmo a revelar uma filha temporã do cantor com uma de suas backing vocals, mas sem tons sensacionalistas ou moralistas. Sounes ainda iria aventurar-se por biografias discográficas de artistas de jazz, como Miles Davis e John Coltrane. Atualmente fora de catálogo no Brasil.

Crônicas – Vol.1” (Bob Dylan): Autobiografia em estilo “back & forth”. Dylan começa por onde acha relevante, deixando o leitor um tanto desnorteado. Cada capítulo remete a um trabalho/disco, nem sempre correspondente em ordem cronológica aos que são considerados clássicos, mas os que tiveram impactos específicos para o próprio cantor. Pouco a pouco, entre adiantos e voltas, é possível entender os pontos de sua vida que Dylan acha que realmente deveriam ser revelados. Dylan assinou e recebeu por três volumes, mas até hoje editou apenas este. Possível de ser achado com um pouco de paciência nas livrarias.

No Direction Home” (Robert Shelton): Lançada originalmente em 1986, têve as bençãos, mesmo que à distância, de Dylan, graças à uma amizade antiga com Shelton, um dos primeiros a escrever sobre ele na imprensa americana. Mesmo sabendo do projeto, Dylan não intervem entre o autor e os entrevistados, sejam eles seus pais, seu irmão, amigos de diversas épocas e lugares, e ex companheiras. Autor e biografado cruzam-se pelos backstages em diversas oportunidades, num jogo de gato e rato onde os papéis de caça e caçador alternam-se, muito pela diversão pessoal do próprio Dylan. Trás valiosos perfis dos trabalhos considerados de peso do cantor (de 1961 a 1975), inclusive com minusciosas análises faixa à faixa. Foi revista e ampliada pelo próprio Shelton duas vezes, e relançada definitivamente um ano após sua morte, em 2010, sendo esta a edição recentemente lançada em português.

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Miami com Copacabana (ou Quatro Coringas Batutas)

Quando o famigerado “b-rock” viveu sua ressaca mercadológica, entre 1988 e 1993, alguns grupos continuaram cruzando guitarras elétricas e samba, baterias eletrônicas e ritmos regionais. Fiéis escudeiros da mistura começada com nomes como Mutantes, Novos Baianos e Alceu Valença, esses grupos, apesar do fracasso de vendas e do ostracismo, acabaram sendo a ponte para artistas vindouros como Raimundos, o povo do Manguebeat e afins. Abaixo, quatro elementos dessa fase:
 
 
Black Future – Tantão e Satanésio eram figuras fáceis da cena da Lapa carioca do início dos anos 80. Frequentando o Circo Voador (o stage dive suicida no clip de “Vital e Sua Moto”, dos Paralamas, é de autoria de Satanésio), bebendo nos botequins da rua do Riachuelo e alimentando as ideias com No Wave americana e Post Punk inglês acabaram montando o duo Black Future em 1984. Baterias eletrônicas emulando batidas de samba, vocal declamado e letras com colagens urbanas onde se misturavam Joãozinho Trinta, João do Rio e Lóki, o malvado irmão de Thor, a dupla virou sucesso de crítica, mas nunca caiu pra valer no gosto da massa. O “one hit wonder” da banda, “Eu Sou o Rio”, acabou anos depois sendo mais conhecido e lembrado pelos versos de “Fazendo a Sua Cabeça”, do Planet Hemp.

 
 
Picassos Falsos – Mais carioquices, dessa vez vinda da Tijuca, mas tendo a malandragem da Lapa como fundo. As composições de Humberto Effe e cia transitavam entre boleros, Noel Rosa, Tim Maia (tijucano ilustre), travestis, navalhas, Echo & The Bunnymen, baião, universo Marvel, Hendrix e coisas estreitamente ligadas ao cotidiano dos cariocas como o carnaval, as chuvas de verão e a favela. “Quadrinhos”, do primeiro trabalho dos PF (de 87), foi parar na trilha de “Armação Ilimitada”, o que deu um fôlego para que a banda ainda lançasse “Supercarioca” (título tirado de um verso da canção “Magrelinha”, de Luiz Melodia), clássico absoluto do quarteto. O guitarrista Gustavo Corsi virou side man requisitado ao lado de artistas como Marina Lima, Gabriel O Pensador e Fernanda Abreu. Humberto Effe lançou um trabalho solo e dividiu parcerias com Fausto Fawcett, Dado Villa-Lobos e Tony Platão. Em 2008, vinte anos depois de “Supercarioca”, sai “Mundo Novo”, uma tentativa de reinserir a banda num cenário que ela própria ajudou a criar, mas que nunca chegou a usufruir.

 
Fellini – O nome vem de um disco dos Stranglers e o termo “low profile” não existia, mas é bem provável que tenha sido inventado por eles, e para eles. A formação girava em torno da dupla Cadão Volpato (hoje apresentador da TV Cultura), do multiinstrumentista Thomas Pappon (atualmente em Londres, na BBC Brasil), de uma bateria eletrônica rudimentar e um estúdio portátil de 4 canais (em K-7), juntos fazendo uma leitura própria de samba ressaltando um certo clima sorumbático, letras surreais e meio cinematográficas (única coisa que os remeteria ao cineasta italiano). Isso acabou por fazer o Fellini cair nas graças da imprensa especializada e dita antenada; assim entre 1984 e 1988 lançaram quatro discos independentes, que, paradoxalmente, foram fazer a cabeça da garotada do outro lado do país, no Recife (o resto é história). Decretado um hiato em 1990, Cadão ficaria, ainda no núcleo “flutuante” do Fellini, com o Funziona Senza Vapore, e Thomas continuaria envolvido na música com o projeto The Gilbertos. A dupla voltaria a trabalhar junta em 2002, lançando “Amanhã é Tarde” e reunindo-se aqui e ali para shows esporádicos.

Vzyadoq Moe – Vindos de Sorocaba, a “Manchester brasileira”, criaram um híbrido de guitarras, uma bateria de latas e chapas metálicas e letras claustrofóbicas remetendo ao simbolismo de autores como o paraibano Augusto dos Anjos. Joy Division e A Certain Radio encorporados a um afrobeat herdado dos terreiros de umbanda. Lançaram um disco pelo finado selo Wob Bop (que também trabalhou na mesma época com Fellini e Violeta de Outono). Ensaiaram um retorno no início do novo milênio, mas nunca sairam da prateleira do “cult”.

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Conheça as bandas do “Teresina é Pop” 2011-10ª Edição

Na Central de Artesanato (praça Pedro II, centro), sempre às 20:00 hs, entrada franca
Dia 11.08 (Quinta)

Növa – http://myspace.com/noova
Obtus – http://www.myspace.com/obtus
André de Sousa & The Mojo Band – http://www.youtube.com/watch?v=IS5k-9egYEw
Radiofônicos – http://www.myspace.com/radiofonicos

Dia 12.08 (Sexta)
BR-316 – http://palcomp3.com/BR316
Batuque Elétrico – http://www.batuqueeletrico.blogspot.com
Scrok – http://www.myspace.com/scrok
Fullreggae – http://www.myspace.com/fullreggae

Dia 13.08 (Sábado)
Quarterão – http://www.youtube.com/watch?v=s_kPu5EWDUM
Cabesativa – http://www.scudband.com
Narguilê – http://narguilehidromecanico.blogspot.com
Validuaté – http://validuate.blogspot.com
Scud – http://www.scudband.com

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Crônicas de um Bebum Louco

Se você pronunciar o nome do escritor Charles “Hank” Bukowski, vai ouvir um adjetivo tipo “safado”, “imoral”, “bêbado”, ou coisa semelhante. Alemão de nascimento e americano de criação, Bukowski, assim como Nelson Rodrigues, pegou fama na mídia por ser um personagem de si mesmo, mesmo que de perto ele não fosse esse bicho-papão. Um de seus livros mais importantes, “Mulheres” (1978) volta às prateleiras em 2011, depois de esgotado no Brasil há quase trinta anos.

Filho único de um casal alemão que migrou para a Califórnia com o fim da 1ª Grande Guerra (1914-1918), Bukowski passou infância e adolescência entre a ascensão da indústria da diversão na Costa Oeste e a Grande Depressão. Sua infância, narrada em seu livro “Misto Quente” (1982) foi dividida entre a descoberta da literatura e os safanões do pai. O jovem Hank celebrou sua entrada na vida adulta com um soco na cara do pai, que ao apanha-lo passando mal bêbado, quis esfregar-lhe o rosto no assoalho. Mas o pior de seus pesadelos começaria a se manifestar logo depois. Pouco antes de entrar para o exército e sair definitivamente da casa dos pais, Bukowski trava uma torturante batalha contra a acne vulgaris, que lhe provocaria tumores e manchas pelo corpo, atacando em cheio sua autoestima. Tão dolorosas quanto a acne eram as agulhas usadas no tratamento, ainda primário, das erupções.

Livre do exército e já craque no copo, Charles Bukowski ruma para a costa leste e o meio-oeste americano, para cidades como Boston e Chicago, onde perambula por sub-empregos e conhece sua primeira companheira, uma jovem alcoólatra que moldará os perfis de mulheres perfeitas e impossíveis em seus livros. De volta à Califórnia continua entregando seus anos dourados de juventude ao alcoól e aos trabalhos de meio período, que lhe permitem sobreviver, escrever de forma não profissional e encher a cara. Estórias envolvendo esses anos são compiladas em “Factotum” (1975).

Na ânsia de continuar mantendo o estilo de vida, arruma um emprego nos correios. As jornadas e plantões infernais vividos nos porões do suntuoso prédio do US Mail são relatados em “Cartas na Rua” (1971). Em uma biblioteca ao lado do serviço, Bukowski encontra um exemplar de “Pergunte ao Pó” do judeu itáloamericano John Fante. Decide ali cair de vez nas graças da escrita, enviando material à editoras. Assina com a Black Sparrow, sua primeira e única editora. Anos mais tarde Bukowski praticamente a obrigaria a também assinar com Fante, já cego pelo diabetes e há muito afastado da literatura.

A Califórnia de Charles Bukowski não é a das garotas douradas de sol, nem das musas cinematográficas de Hollywood. Lugares como Beverly Hills ou Bel Air só pra alguma festa 0800. Nada dos pesadelos psicodélicos pincelados pelas cores das drogas de Thomas Pynchon e Hunter S. Thompson. É uma atmosfera claustrofóbica de guiar fuscas (impreterivelmente bêbado) pelas autoestradas, jogar conversa fora em balcões de bares fedendo à cerveja choca; becos onde bêbados vão brigar entre uma dose e outra, e onde cada bangalô e hotel barato parece guardar uma alma solitária à espera de que ao menos o senhorio pentelho venha bater-lhe à porta e dar um alô. É nesse universo que habita Henry Chinaski, alter ego de Bukowski, funcionário público de gênio estourado até o final do expediente, e mosca de bar no resto do tempo.

“Mulheres” narra aventuras e desventuras de Chinaski com suas namoradas, amantes, companheiras e também com as neuroses que acompanham o pacote completo. Diferente do Bukowski pueril de “Misto Quente” e do desconfiado porém afoito Hank de “Factotum”; “Mulheres” trás um Bukowski adulto, calejado pela vida, pelos excessos e raposa velha no universo feminino. Pai solteiro de uma filha, o escritor nunca a citou, nem qualquer outra criança, em suas obras.

Avesso aos beats, a quem erradamente é associado, passou a fazer palestras e leituras pelos EUA, que invariavelmente acabavam em tumulto, pois Bukowski bebeia para driblar a timidez e acabava por discutir e trocar ofensas com a platéia. No fim da vida, casado formalmente, aposentado dos correios, usufruindo dos ganhos como escritor, mudou-se para o extremo sul da Califórnia, onde, entre garrafas de vinho barato, faleceu em 1994, aos 73 anos de idade, de leucemia. Seus últimos delírios de vida estão em “O Capitão Saiu Para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio” (póstumo-1998).

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Suspense em Garrafas

Estava eu esta semana procurando nas livrarias virtuais por “Hitchcock/Truffaut”, livro que compila as entrevistas do cineasta inglês ao “Carrier du Cinema”, sob as auspícias de um de seus idealizadores, François Truffaut. O Google, maravilhosamente, me dá acesso a algum conteúdo e me detenho numa declaração do diretor francês de que seus dois filmes prediletos do mestre do suspense seriam “Janela Indiscreta” (Rear Window-1954) e “Interlúdio” (Notorious-1946).

Não me considero cinéfilo nem tenho pretensão de sê-lo, meu gosto pela sétima arte foi fomentado nas locadoras, longe do gigantismo romântico dos cinemas de rua ou dos “poeirões”. Do besteirol aos blockbusters, passando pelos “filmes de arte”, foram todos catados em prateleiras, ainda em formato VHS. Outra boa parte do meu modesto gosto cinematográfico vem mesmo da TV, que a partir de 1985, com o fim da censura (ao menos no papel), começou a liberar certos filmes, mesmo que em horários pouco convidativos, afinal filme “difícil” faz a cabeça funcionar, e os milicos não achavam isso legal. Na TV e posteriormente via locadoras, assisti boa parte dos trabalhos de Alfred Hitchcock, menos um ou outro, incluindo “Interlúdio”.

Nas sessões de gala e domingos maiores tive a sorte de ver, até, “Rebecca, Uma Mulher Inesquecível”, primeiro trabalho de AH em solo americano, trabalhando para a MGM, sob a tutela do produtor David O.Selsnick, seu carrasco e grande incentivador às avessas. Um clássica estória de amor e ódio, digna das telas, amarrou Hitchcock a Selsnick. Enquanto o inglês via no mercado americano a chance de chegar às massas contando com todo apoio e recursos dos estúdios da época, o produtor tentava formata-lo à fome mercadológica da indústria hollywoodiana, ávida por produções em grande escala à custa de fórmulas macaquiadas de produção.

Com o final da Segunda Guerra Mundial, o governo americano enxergava na fácil penetração do seu cinema entre as nações amigas, ou potencialmente amigas, uma maneira eficaz de política externa e fazer frente aos supostos inimigos (quem quer que fossem…). Assim estúdios como a Disney passaram a produzir desenhos voltados ao público brasileiro, com elementos “nativos”, estendendo a mão para um aperto enquanto escondiam o “big stick” de Roosevelt pelas costas. A MGM arriscaria no filão. Mesmo tendo ganho um Oscar de melhor filme logo em sua estréia no mercado dos EUA com “Rebecca”, Hitchcock levava pressão de Selsnick por fitas “açucaradas”, tidas pelo produtor como chave para arrastar multidões às bilheterias.

Pois além de melosa, a trama de “Interlúdio” teria de se passar no Brasil, e Hitchcock que se virasse: Selsnick trancou os cofres de cadeado e ninguém da produção, fora um ator brasileiro que faria um chefe de polícia chamado prosaicamente de Barbosa, pisou em solo tapúia. Hitchcock desvela com maestria, usa cenas de documentários (genial? Nem tanto. Orson Welles usou o truque em “Cidadão Kane” e as imagens provavelmente foram cedidas pelo próprio Itamaraty) para inserções cirúrgicas de chroma-key, uma técnica rudimentar (e nos dias atuais até grosseira) onde os atores são filmados num fundo infinito e na mesa de edição outras imagens são enxertadas. Assim, numa “falsa externa” o casal central, Cary Grant e Ingrid Bergman, conspira sentado num banquinho de praça, enquanto a vida na Cinelândia dos anos 1940 corre livremente ao fundo. O chroma-key é aplicado como recurso e não como muleta, e AH usa-o com tanta elegância que arrisca pô-lo nas lentes do binóculo de Bergman durante uma corrida de cavalos.

Selsnick queria Vivian Leigh (de “…E o Vento Levou”)como mocinha, Hitchcock, por pirraça e para dar o troco no corte das verbas, trouxe Ingrid Bergman (de “Casablanca”). Cary Grant ainda trabalharia sob sua batuta em “Ladrão de Casaca” (To Catch a Thief-1955, com Grace Kelly). Grant faz um policial sonso que tem de ficar na cola da filha de um conspirador nazista (Ingrid Bergman). Como o governo quer informações dela e de uma suposta intriga internacional, descambam os dois (num avião que não balança) para a Cidade Maravilhosa. Bergman envolve-se com um ricaço (Claude Rains – o nome do sujeito é esse mesmo, com trocadilho e tudo) que comanda um grupo de cientistas interessados em contrabandear urânio brasileiro em garrafas de vinho (!!) com propósito de fabricar uma bomba nuclear (nada mais guerra fria).

E o açúcar? A mocinha é levemente alcoólatra e , chouvinisticamente, rotulada de vagabunda em mais de uma cena, o mocinho se faz de desentendido até vê-la nos braços de outro, passando a dar chiliques de ciúme; e aparece até uma sogra (Selsnick?) pra entornar o dramalhão. Já vem dessa época uma mania de AH que tornou-se uma de suas marcas registradas: aparecer nos próprios filmes. A coisa pegou tanto que até diretores brasileiros como Bruno Barreto e Carlos Reichenbah já usaram do recurso. Durante uma festa, o diretor, pagando de bêbado, entorna uma taça de champagne. Mas e o famoso suspense? Está lá, numa chave de adega (da marca “unica”, sem acento), que junto à garrafas em número reduzido a serem servidas na recepção vão fazer o plot da reta final da trama.

“Interlúdio” sofreu com a censura da época, que se escandalizava e carimbava ‘não’ até em cena de beijo. Os pegas entre Hitchcock e Selsnick ainda durariam (o inglês quase mataria o produtor ao filmar “Rope”, em plano sequência e levando dilemas de Dostoiévski e Nietsche para o povão) e na Europa, onde AH não conseguiu projetar seus filmes, uma geração de seguidores do “cinema de autor” preparava-se pra emergir impulsionada por seus filmes “comerciais”.

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A Vida é Dura pra Quem é Mole

You keep all your money in a big brown bag/inside a zoo
What a thing to do!/Baby, you’re a rich man too!

(Lennon & McCartney – 1967)

A vida é o passatempo dos ricos” – Peter Sellers, comediante inglês

Pai rico, filho nobre, neto pobre”. A revista estadunidense Forbes, especialista em fortunas e listas que amealham ricaços pelo mundo, parece não crer nesse dizer popular. Como a lista dos ‘mais mais’ deles só sai uma vez no ano, inventaram de fazer uma lista dos mais ricos dos quadrinhos e cartoons, os “The Fictional 15”. Como esses sempre foram os meios preferidos do capitalismo se engendrar na mente da criançada, não foi lá muito difícil achar magnatas rabiscados suficientes pra povoa-la. Vejamos abaixo os “bem nascidos”, suas fortunas, como elas se originaram e, o principal, como elas se mantém:

Tio Patinhas (Scrooge McDuck) $44 bi (em alta) #1

Idade: uns cento e poucos…

Origem da fortuna: desde que ganhou sua moedinha nº1 não parou de fazer tudo pra ganhar dinheiro, mas deu um belo salto mexendo com mineração (que nem o Eike Batista). A equação “idade x ganho” até justificaria o fato de na terceira idade ele morar numa caixa forte.

Esporte: nadar, literalmente, em dinheiro

Como mantém sua fortuna: Patinhas explora países menores, “guardando” sua fortunas e tesouros consigo, a salvo de ladrões e proxenetas internacionais. Não gasta com pessoal pois explora o sobrinho Donald (que não ganha o suficiente pra comprar uma calça) e o trabalho escravo infantil de seus sobrinhos netos Huguinho, Zezinho e Luisinho. A fama de avarento também contribui.

Riquinho Rico (Richie Rich) $9,7bi (em queda) #5

Idade: eternos 11 anos

Origem da fortuna: berço de ouro, herdeiro do ramo da robótica.

Esporte: todos os que sejam novidade.

Como mantém sua fortuna: Riquinho é daqueles que protege o patrimônio da família. Está sempre de olho nos negócios onde a família está se enfiando, e vez por outra os salva de entrar em roubadas mais que literais. Luciano Hulk quer ser que nem ele quando crescer.

Antony “Tony” Stark (The Iron Man) $9.4bi (e subindo) #6

Idade: cronológica, 40 – mental, 15

Origem da fortuna: herdeiro da indústria bélica

Esporte: carros de corrida, aviões supersônicos, motos velozes e qualquer outro onde dê pra levar uma loira junto.

Como mantém sua fortuna: Stark, até pra manter as aparências, precisa posar de enfant terrible dos negócios. Vende e revende armamento a aliados e inimigos, beneficia-se de invasões militares, de esquemas diplomáticos ou mesmo de meros contrabandistas. Personifica bem o que a CIA fez por nações menos favorecidas e de sangue quente nos últimos 60 anos pelo Terceiro Mundo.

Bruce Wayne (Batman) $7.0 bi (em alta) #8

Idade: 50 com corpinho de 35

Origem da fortuna: Wayne herdou, após o assassinato brutal dos pais, um parque industrial voltado sempre para as novas maravilhas tecnológicas.

Esporte: xadrez e charadas

Como mantém sua fortuna: Ao contrário do apelo exibicionista de seu amigo Tony Stark, Wayne opta por fazer o tipo do milionário excêntrico e recluso, o que lhe favorece na hora de confeccionar novos acessórios para o batmóvel ou mesmo pro cinto de utilidades. Por outro lado essa reclusão o deixou meio mal na mídia por aparecer sempre acompanhado de algum garoto prodígio.

Montgomery Burns (também conhecido por “Patrão”) $1.1bi (e ainda subindo) #12

Idade: só Deus e o Smithers sabem…

Origem da fortuna: Burns nasceu rico, mas sua infância mimada e sem figuras paternas aguçou seu instinto frio e calculista em manter-se rico.

Esporte: assédio moral

Como mantém sua fortuna: típico fomentador de governantes que pudessem lhe render vantagens, Burns escolheu a pacata Springfield para montar uma tranquila usina nuclear e assim vender energia ao próprio governo. Só não contava ter funcionários tão relapsos, imbecis, preguiçosos e idiotas como aquele ali babando…”Qual é o nome dele mesmo, Smithers?!” (“…é Simpson, senhor.”). Sofreu um abalo sísmico nas finanças recentemente ao ter episódios da série que contassem com sua presença censurados no Japão devido ao acidente nuclear em Fukushima, mas mesmo assim continua com ações em alta.

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Mais Discos Que Amigos

Vinicíus de Moraes,bebedor dos bons, dizia que nunca fez amigos na leiteria. Na vida, fiz muitos amigos ouvindo discos. Numa época em que não haviam facilidades como e-mail, celular, mp3 e outras ‘mudernidades’, conheci muitas pessoas em verdadeiras peregrinações atrás de uma cópia de algum disco, detentor, talvez, da resposta pro sentido da vida, ou de algum conselho valioso, de uma luz, ou mesmo de meros 40 e poucos minutos de distração. Isso pode soar interesseiro, mas numa época da sua vida na qual você procura identidade e pessoas que pensem (e gostem) das mesmas coisas que você, isso passa a ter um sentido gigantesco.

Assim eu corri as ruas do centro por um disco do D.R.I, as ruas do Planalto Ininga, quando elas não passavam de caminhos de areia com touceiras de mato, atrás de um Mercyful Fate importado, um Neil Young detonado e caindo aos pedaços no Acarape. Isso no tempo do vinil, quando lojas inteiras eram cobertas deles , do teto ao chão. CDs eram coisas de ficção científica e ocupavam um espaço acanhado num cantinho.

Assim, com discos debaixo do braço, fui encontrando meus ‘iguais’; ou nem tão iguais assim, tendo em vista que muitos tinham um estranho sentimento de posse sobre as bandas e discos que conheciam. Ter um certo conhecimento prévio era fatal pra azedar o ‘canal’. Mesmo assim continuei colecionando lugares, discos e pessoas. Uma coleção do Genesis no Marquês, ou um amigo da aula de inglês que me dava a oportunidade de ver e ouvir um disco do Aerosmith, e mesmo coisas que nem me interessavam na época, como um professor portando um recém-lançado e raríssimo (até hoje por essas plagas) disco duplo do XTC.

Fui fazendo amigos e discos, depois bandas e amigos; e hoje em dia me pesa ver que alguns amigos se perderam pela estrada, alguns discos foram e não voltaram mais. Bandas se mostraram uma força da natureza, algo que não cabe classificar aqui, talvez mistura-las na estória nem devesse valer a pena, ficaram como uma espécie de extensão. Meus discos entulharam em casa e meus amigos e ‘amigos’ estão no lugar onde sempre pertenceram: pelo mundo.

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Pay Cash For Chaos

O simpático aí na foto se chama Michael John Burkett, mais conhecido entre seus fãs como Fat Mike. Há vinte e oito anos ele lidera uma banda de hardcore melódico, NoFX, excursiona pela America do Norte e outros países do mundo, tocando e espalhando um discurso carregado de sarcasmo, humor negro e críticas políticas. Foi um dos artistas estadunidenses que mais ironizou em seus trabalhos a paranóia da Era Bush.

Ainda lá pelo comecinho dos anos 1990, Mike e seus companheiros já faziam um estrago (no bom sentido) considerável nos meios underground americano, fruto de constantes turnês costa-à-costa pelos EUA. Começaram então a aparecer diversas bandas formadas pela garotada que consumia NoFX, todas calcadas no som da banda, explorando clichês sonoros à exaustão.

Os amigos, músicos e críticos começaram então a querer “abrir os olhos” de Fat Mike para o parâmetro mercadológico que sua banda estava criando; e de como ele podia estar sendo prejudicado financeiramente por aquilo. Era urgente tomar uma atitude, uma sanção, recorrer a advogados se fosse o caso. No entender de quem via à distância, sua propriedade intelectual estava sendo aviltada e lesada.

Fat Mike e o NoFX nunca processaram uma banda.

Usando a cabeça fundaram um selo, o Fat Wreck (algo tipo “as desgraças do gordo” – Mike, no caso), e colocaram todas as xerox (só as melhores) do NoFX pra gravar nele. Todos saíram ganhando: as bandas gravavam no selo do ídolo, aproveitavam seu prestígio a lhes servir de sombra; e Fat Mike nunca precisou gastar um tostão com advogados e ainda pôs quem lhe imitava para lhe render uns bons trocados, sem queimar o próprio filme nem passar de explorador.

Isso é ser punk.

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