Memórias Póstumas

Fregueses dos mais diversos segmentos, de músicos a jornalistas ou meros consumidores finais de boa música, choraram na última semana o fim de uma era: o fechamento em definitivo da Modern Sound, loja carioca que tornou-se referência nos últimos 40 anos abastecendo discotecas com as últimas novidades mundiais. Alegando ter sido golpeada de morte pelo surgimento e ascenção da música digital, fechou as portas com um encalhe de 100 mil peças (à boca pequena), que vai ser desfeito num leilão. Provando que a maré é mundial, a rede britânica HMV anunciou o fechamento de 60 lojas até o final de 2011.

A ‘volta’ do vinil é pálida. Nem o mais romântico dos ouvintes sonha com o retorno definitivo do formato. Se o consumo desenfreado nos anos 1980 foi a tônica, hoje, dando o tempo como perdido, a questão é espaço. E foi aí que o CD, hoje já ultrapassado enquanto formato, entrou em cena, vendendo a imagem de som cristalino em mais espaço interno (quase duas vezes o long play) e ocupando menos espaço externo nas estantes. Engolido em menos de dez anos pela música digital (mesmo com mercado de venda e distribuição ainda não formatado) o CD desceu às cordas atropelado e trucidado pelo MP3, pela internet, pelos pen-drives, i-pods, celulares e afins.

No último mês de 2010, Damon Alburn, ex-Blur e atualmente à frente da cartoon band Gorillaz anunciou que lançaria um novo trabalho antes do Natal, trabalho esse totalmente feito em quartos de hotel durante uma turnê americana de pouco mais de quinze dias. Nada de aparelhagem móvel ou mansões convertidas em estúdios: Alburn usou um i-pad e respectivos apps para gravar, mixar e finalizar seu novo tento. É a quintessência do ‘do it yourself’, vaticinado pelo punk ainda no final dos anos 1970. O artista não precisa mais não apenas da loja física pra ‘se’ vender mas não necessita também de uma gravadora que lhe cobre mostrar serviço, que agende gravações, produtores e demais processos. A independência levada às últimas consequências.

Da estante para a esteira da música digital, muitos artistas tem garantido seu equilíbrio diversificando seus rendimentos aplicando, por exemplo, no segmento de jogos eletrônicos. Estão aí os Rock Bands e Guitar Hero pra provar. Qual moleque nunca tocou uma air guitar ou air drums com volume do aparelho de som no talo? Era apenas questão de desenvolver a idéia, e com o interesse dos grupos em fomentar lucros a coisa só ficou mais fácil de deslanchar. Em breve, assim como as lojas de disco, ninguém vai mais tocar nada. Uma stratocaster, uma les paul ou um rickenbaker, objetos de desejo e culto para gerações inteiras, vão ser apenas coisa de fotografia; assim como o Super-8, o vinil, o CD, o Betacam, o VHS e toda memorabilia tecnológica que cada dia mais resiste menos aos atropelos e necessidades canibais do mercado.

Sobre odeiopassas

Leia aqui tudo que os jornais não querem me pagar para escrever pois dizem que ninguém ia querer ler.
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10 respostas para Memórias Póstumas

  1. Eduardo disse:

    Não acho que o culpado pelo ocaso do vinil, VHS ou mesmo o CD tenha sido apenas o fator mercadológico. Trata-se de praticidade, facilidade. A MP3, ainda que em imensa maioria dos casos tenha origem ilegal, ocupa menos espaço, é mais fácil de manipular (quem da nossa idade não lembra do suplício do método “caneta bic” metida nos furos das fitas pra avançar ou voltar músicas?) e tem ótima qualidade. Hoje meia dúzia de chatos reclamam que a compressão a 128kbps elimina as frequencias tais e quetais das músicas, blablabla, nhenhenhem. Mas esses mesmos antipáticos esquecem que ouviam as fitinhas basf com muito menos qualidade – e tem o descaramento de dizer que tem saudade desse tempo. Eu não tenho. Esperava meses, anos pra ver um filme ou ouvir um disco aqui nesse cafundó chamado Teresina. Deus me livre voltar pra isso. Se hoje as coisas estão mais descartáveis, se adolescentes formam restarts em vez de led zeppelins, por outro lado a informação é farta e facilitada – quem quiser, lê, vê e ouve muita coisa boa, do passado e do presente. Longa vida aos downloads, à mídia digital e às bandas de rock com vergonha na cara, velhas e novas. Que elas continuem aproveitando essa tecnologia para cada vez mais fazer música independente e fácil de ser ouvida.

  2. odeiopassas disse:

    Como diria Marcelo Yuka: é a democratização das baixas tecnologias😉

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  4. anucha disse:

    adoro o que vc escreve. seja onde for. bj

  5. Marília disse:

    ótimo texto, principalmente a parte onde vc falou do “reinado curto” do CD. As pessoas preferem baixar um som e sair por aí desfilando com seus I-pods…

  6. Marília disse:

    Ah esse seu texto me fez lembrar o clipe do Pearl Jam Do The Evolution…

  7. cyn costa disse:

    Posso dizer??? Concordo com tudo que o Eduardo disse. =)

  8. Luciano Coelho disse:

    Fernando,
    Li. E concordo com parte do que você disse e parte do que o Eduardo disse. Mas o CD hoje, que também tem os dias contados, aumentou em zilhões a pirataria, tanto que reduziu a quantidade de cópias de um cantor para ter um disco de ouro ou plantina. Os genéricos ficaram na dianteira e com uma qualidade sempre duvidosa. Mas viva as novas tecnologias, que aprendamos a mexer com elas.

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