Anjos de Cara Suja

Se alguém falar em Patti Smith, muito provavelmente virá à sua cabeça a capa de “Horses” (1976), seu disco de estréia. Encostada numa parede branca, Patti enverga uma imagem andrógena, de mangas arregaçadas, gravata desfeita e paletó jogado sobre o ombro. O click foi obra do fotógrafo e artista plástico Robert Mapplethorpe, que ficou conhecido como sucessor do artista pop Andy Warhol, e primeira pessoa que Patti conheceu ao chegar em New York, no final dos anos 1960.

Nessa época não existiam Patti e Robert; apenas Patricia e Bob. Ela, filha da classe operária de New Jersey, envolvida com as letras desde pequena e com um chamado latente do Rock’n’Roll ainda adormecido dentro de si. Ele, um típico garoto da classe média americana, um artista em mutação – profissional e pessoal, que acabou por leva-lo à fotografia e ao ativismo gay, culminando com ensaios que foram considerados pornográficos e banidos das galerias de arte, criando discussões políticas na mídia sobre arte contemporânea e liberdade de expressão.

Patti e Robert tiveram um relacionamento quase adolescente enquanto ambos procuravam suas identidades artísticas na virada dos anos 1970, na New York de Andy Warhol, da Factory, do Max’s Kansas City, do Bowery e do CBGB’s. Enquanto matavam a fome física com sanduíches de pão com alface e toddy e morando em hotéis boêmios, diante de seus olhos desfilaram personagens como William S. Burroughs e Jimi Hendrix; um lanche pago por Allen Ginsberg ou um esbarrão em Grace Slick. Uma cidade onírica e quase volátil embriaga os jovens amantes, que escapam das contas do final do mês à custa de bicos em mudanças e rapinas em sebos de livros.

Na segunda metade dos anos 1970, os caminhos se separaram. Patti virou musa do punk da costa leste, cravou parcerias com Bruce Springsteen, influenciou jovens artistas emergentes como Michael Stipe e Bono Vox, namorou Richard Hell e trocou-o por Paul Simonon durante uma turnê britânica. Acabou dona de casa e mãe, casada com Fred “Sonic” Smith, ex-MC5, que acompanhou até o fim da vida. Robert Mapplethorpe assumiu sua homossexualidade e foi uma das primeiras figuras públicas a expor nos EUA sua batalha contra a AIDS, que o vitimou em 1989.

Em “Só Garotos”, Patti Smith relembra os anos de convivência com Mapplethorpe, num texto leve, mesmo quando esmiuça as cenas de abuso de drogas nos hotéis baratos onde viveram ou nas situações bizarras vividas ao lado de outros freaks da sociedade. Com uma delicadeza quase poética, desenha e descreve a personalidade de Robert à semelhança de um anjo triste à procura de luz; como se ela, igualmente cega de vontade de viver, pudesse naquele momento ser sua guia e protetora. Misturando Rimbaud e os escritores beats aos Rolling Stones e Byrds, “Só Garotos” é também um resgate de uma história americana agora já meio longinqua; onde pendurar uma guitarra no pescoço ou fazer uma exposição com recortes de revistinhas pornôs ainda tinha lá sua atitude.

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Leia aqui tudo que os jornais não querem me pagar para escrever pois dizem que ninguém ia querer ler.
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4 respostas para Anjos de Cara Suja

  1. Christy Ribeiro disse:

    Esse aí fiquei doida pra ler. Lindas palavras!

  2. Pingback: Tweets that mention Anjos de Cara Suja | Odeio Passas! -- Topsy.com

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