Uma Noite em 73

Em 1973, um pouco depois de voltar de Londres e um pouco antes da chamada “Fase Re”, nosso querido ex ministro Gilberto Gil encarou shows e mais shows pra tornar a se adaptar à vida brasileira. Tido como força intelectual até maior que Caetano na feitura da Tropicália
(manifesto, proposta, disco, identificação visual, etc.) era considerado também, pela esquerda ululante, mais politizado. Em meio a uma temporada paulista, Gil foi “atraído” para um show na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, “antro” das esquerdas; a festiva incluída.

Mais de trinta anos depois, a gravação daquela noite, feita num gravador de rôlo moderníssimo pra época, foi parar na internet, ao alcance de uma “googlada“.

Um estudante da Poli havia sido morto pela repressão, e a ida de Gil até lá podia ser encarada como um tapa de luva de pelíca na turma da Operação Bandeirantes, mas também podia ser visualizada como um barril de pólvora. Gil era um artista muito visado naquele 1973. Além de recém chegado do exílio, era vítima preferencial da censura. Menos de seis meses antes, durante a execução de “Cálice”, parceria com Chico Buarque, num festival em pleno Anhembi, ambos tiveram o microfone cortado, num episódio que hoje é tido como uma das demonstrações mais flagrantes do poderio da censura nos anos de chumbo.

Pelo set list, Gil chegou no salto. Pretendia tocar coisas descontraídas, algumas preferidas, sambas “paulistas”, que julgava pérolas perdidas, do sambista Germano Mathias (“sambista de fato, hoje afastado das lídes”, explica à certa altura) e passar, diplomaticamente, ao largo do repertório panfletário dos tropicalistas, justamente o que a platéia aguardava, salivando. Não demora muito. Lá pela terceira música começam os “pedidos” e as incitações, tentativa de se politizar um show de voz e violão. Diante de uma platéia da mais fina flor da intelectualidade, Gil destila seu charme baiano com bom humor, e vai desviando. Alguém pede “Cálice” e ele diz não saber a letra decorada. Sem problemas: alguém mais precavido anda com a letra no bolso (“Posso ficar? Você me dá?”, pede depois de cantar com o auxílio da “cola”). Os pedidos são dos mais variados, desde músicas obscuras dos tempos dos festivais à opiniões sobre a censura galopante.

Gil vai afrontando a platéia sem arriscar bater de frente. Defende “Domingo no Parque” (“uma música muito bonita, eu ainda adoro”) e entrega “Procissão” (“essa canção tem
lá suas incoerencias”, fazendo na sequência uma relação “Cristianismo x General Motors” bem ao estilo GG). Aqui e ali alguém tenta “politizar” e é reprimido pelas vaias, o cabo do microfone apresenta mau contato, e o repertório se arrasta com mais descontração. O achado revela faixas que o próprio Gil nunca registrou em disco: “Edith Cooper” (“Essa eu fiz pra uma bicha da Bahia, artista plástica e cantor(…)Hoje ele é crooner em uma boate da Praça Mauá, barra pesada”), “Noite Morena”, “Umeboshi” (uma canção com caráter de jingle alimentício, anterior à “Jurubeba”) e uma versão colossal de “Filhos de Gandhi”, com
mais de 22 minutos de duração, onde Gil explica ao público o que é o afoxé, o iorubá, os gegês, defende a ressureição dos blocos de carnaval de Salvador (Mal sabia ele o que a indústria do carnaval baiano ia virar dali a um tempo) e ainda bota Jorge Ben na estória (gravariam a música juntos dois anos depois, no hoje antológico “Gil & Jorge”).

Gil pede pra encerrar as quase três horas de show, pois ainda tem outro a fazer num teatro e não quer aborrecer a platéia (“Ontem no clube um sujeito ficou jogando flores em mim e me xingando de palhaço”, conta à blague de risadas da Poli). Três horas que passam em três minutos.

Sobre odeiopassas

Leia aqui tudo que os jornais não querem me pagar para escrever pois dizem que ninguém ia querer ler.
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Uma resposta para Uma Noite em 73

  1. christy Ribeiro disse:

    Quem salivou por esse show fui eu.

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