Mais Discos Que Amigos

Vinicíus de Moraes,bebedor dos bons, dizia que nunca fez amigos na leiteria. Na vida, fiz muitos amigos ouvindo discos. Numa época em que não haviam facilidades como e-mail, celular, mp3 e outras ‘mudernidades’, conheci muitas pessoas em verdadeiras peregrinações atrás de uma cópia de algum disco, detentor, talvez, da resposta pro sentido da vida, ou de algum conselho valioso, de uma luz, ou mesmo de meros 40 e poucos minutos de distração. Isso pode soar interesseiro, mas numa época da sua vida na qual você procura identidade e pessoas que pensem (e gostem) das mesmas coisas que você, isso passa a ter um sentido gigantesco.

Assim eu corri as ruas do centro por um disco do D.R.I, as ruas do Planalto Ininga, quando elas não passavam de caminhos de areia com touceiras de mato, atrás de um Mercyful Fate importado, um Neil Young detonado e caindo aos pedaços no Acarape. Isso no tempo do vinil, quando lojas inteiras eram cobertas deles , do teto ao chão. CDs eram coisas de ficção científica e ocupavam um espaço acanhado num cantinho.

Assim, com discos debaixo do braço, fui encontrando meus ‘iguais’; ou nem tão iguais assim, tendo em vista que muitos tinham um estranho sentimento de posse sobre as bandas e discos que conheciam. Ter um certo conhecimento prévio era fatal pra azedar o ‘canal’. Mesmo assim continuei colecionando lugares, discos e pessoas. Uma coleção do Genesis no Marquês, ou um amigo da aula de inglês que me dava a oportunidade de ver e ouvir um disco do Aerosmith, e mesmo coisas que nem me interessavam na época, como um professor portando um recém-lançado e raríssimo (até hoje por essas plagas) disco duplo do XTC.

Fui fazendo amigos e discos, depois bandas e amigos; e hoje em dia me pesa ver que alguns amigos se perderam pela estrada, alguns discos foram e não voltaram mais. Bandas se mostraram uma força da natureza, algo que não cabe classificar aqui, talvez mistura-las na estória nem devesse valer a pena, ficaram como uma espécie de extensão. Meus discos entulharam em casa e meus amigos e ‘amigos’ estão no lugar onde sempre pertenceram: pelo mundo.

Sobre odeiopassas

Leia aqui tudo que os jornais não querem me pagar para escrever pois dizem que ninguém ia querer ler.
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