Suspense em Garrafas

Estava eu esta semana procurando nas livrarias virtuais por “Hitchcock/Truffaut”, livro que compila as entrevistas do cineasta inglês ao “Carrier du Cinema”, sob as auspícias de um de seus idealizadores, François Truffaut. O Google, maravilhosamente, me dá acesso a algum conteúdo e me detenho numa declaração do diretor francês de que seus dois filmes prediletos do mestre do suspense seriam “Janela Indiscreta” (Rear Window-1954) e “Interlúdio” (Notorious-1946).

Não me considero cinéfilo nem tenho pretensão de sê-lo, meu gosto pela sétima arte foi fomentado nas locadoras, longe do gigantismo romântico dos cinemas de rua ou dos “poeirões”. Do besteirol aos blockbusters, passando pelos “filmes de arte”, foram todos catados em prateleiras, ainda em formato VHS. Outra boa parte do meu modesto gosto cinematográfico vem mesmo da TV, que a partir de 1985, com o fim da censura (ao menos no papel), começou a liberar certos filmes, mesmo que em horários pouco convidativos, afinal filme “difícil” faz a cabeça funcionar, e os milicos não achavam isso legal. Na TV e posteriormente via locadoras, assisti boa parte dos trabalhos de Alfred Hitchcock, menos um ou outro, incluindo “Interlúdio”.

Nas sessões de gala e domingos maiores tive a sorte de ver, até, “Rebecca, Uma Mulher Inesquecível”, primeiro trabalho de AH em solo americano, trabalhando para a MGM, sob a tutela do produtor David O.Selsnick, seu carrasco e grande incentivador às avessas. Um clássica estória de amor e ódio, digna das telas, amarrou Hitchcock a Selsnick. Enquanto o inglês via no mercado americano a chance de chegar às massas contando com todo apoio e recursos dos estúdios da época, o produtor tentava formata-lo à fome mercadológica da indústria hollywoodiana, ávida por produções em grande escala à custa de fórmulas macaquiadas de produção.

Com o final da Segunda Guerra Mundial, o governo americano enxergava na fácil penetração do seu cinema entre as nações amigas, ou potencialmente amigas, uma maneira eficaz de política externa e fazer frente aos supostos inimigos (quem quer que fossem…). Assim estúdios como a Disney passaram a produzir desenhos voltados ao público brasileiro, com elementos “nativos”, estendendo a mão para um aperto enquanto escondiam o “big stick” de Roosevelt pelas costas. A MGM arriscaria no filão. Mesmo tendo ganho um Oscar de melhor filme logo em sua estréia no mercado dos EUA com “Rebecca”, Hitchcock levava pressão de Selsnick por fitas “açucaradas”, tidas pelo produtor como chave para arrastar multidões às bilheterias.

Pois além de melosa, a trama de “Interlúdio” teria de se passar no Brasil, e Hitchcock que se virasse: Selsnick trancou os cofres de cadeado e ninguém da produção, fora um ator brasileiro que faria um chefe de polícia chamado prosaicamente de Barbosa, pisou em solo tapúia. Hitchcock desvela com maestria, usa cenas de documentários (genial? Nem tanto. Orson Welles usou o truque em “Cidadão Kane” e as imagens provavelmente foram cedidas pelo próprio Itamaraty) para inserções cirúrgicas de chroma-key, uma técnica rudimentar (e nos dias atuais até grosseira) onde os atores são filmados num fundo infinito e na mesa de edição outras imagens são enxertadas. Assim, numa “falsa externa” o casal central, Cary Grant e Ingrid Bergman, conspira sentado num banquinho de praça, enquanto a vida na Cinelândia dos anos 1940 corre livremente ao fundo. O chroma-key é aplicado como recurso e não como muleta, e AH usa-o com tanta elegância que arrisca pô-lo nas lentes do binóculo de Bergman durante uma corrida de cavalos.

Selsnick queria Vivian Leigh (de “…E o Vento Levou”)como mocinha, Hitchcock, por pirraça e para dar o troco no corte das verbas, trouxe Ingrid Bergman (de “Casablanca”). Cary Grant ainda trabalharia sob sua batuta em “Ladrão de Casaca” (To Catch a Thief-1955, com Grace Kelly). Grant faz um policial sonso que tem de ficar na cola da filha de um conspirador nazista (Ingrid Bergman). Como o governo quer informações dela e de uma suposta intriga internacional, descambam os dois (num avião que não balança) para a Cidade Maravilhosa. Bergman envolve-se com um ricaço (Claude Rains – o nome do sujeito é esse mesmo, com trocadilho e tudo) que comanda um grupo de cientistas interessados em contrabandear urânio brasileiro em garrafas de vinho (!!) com propósito de fabricar uma bomba nuclear (nada mais guerra fria).

E o açúcar? A mocinha é levemente alcoólatra e , chouvinisticamente, rotulada de vagabunda em mais de uma cena, o mocinho se faz de desentendido até vê-la nos braços de outro, passando a dar chiliques de ciúme; e aparece até uma sogra (Selsnick?) pra entornar o dramalhão. Já vem dessa época uma mania de AH que tornou-se uma de suas marcas registradas: aparecer nos próprios filmes. A coisa pegou tanto que até diretores brasileiros como Bruno Barreto e Carlos Reichenbah já usaram do recurso. Durante uma festa, o diretor, pagando de bêbado, entorna uma taça de champagne. Mas e o famoso suspense? Está lá, numa chave de adega (da marca “unica”, sem acento), que junto à garrafas em número reduzido a serem servidas na recepção vão fazer o plot da reta final da trama.

“Interlúdio” sofreu com a censura da época, que se escandalizava e carimbava ‘não’ até em cena de beijo. Os pegas entre Hitchcock e Selsnick ainda durariam (o inglês quase mataria o produtor ao filmar “Rope”, em plano sequência e levando dilemas de Dostoiévski e Nietsche para o povão) e na Europa, onde AH não conseguiu projetar seus filmes, uma geração de seguidores do “cinema de autor” preparava-se pra emergir impulsionada por seus filmes “comerciais”.

Sobre odeiopassas

Leia aqui tudo que os jornais não querem me pagar para escrever pois dizem que ninguém ia querer ler.
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