Crônicas de um Bebum Louco

Se você pronunciar o nome do escritor Charles “Hank” Bukowski, vai ouvir um adjetivo tipo “safado”, “imoral”, “bêbado”, ou coisa semelhante. Alemão de nascimento e americano de criação, Bukowski, assim como Nelson Rodrigues, pegou fama na mídia por ser um personagem de si mesmo, mesmo que de perto ele não fosse esse bicho-papão. Um de seus livros mais importantes, “Mulheres” (1978) volta às prateleiras em 2011, depois de esgotado no Brasil há quase trinta anos.

Filho único de um casal alemão que migrou para a Califórnia com o fim da 1ª Grande Guerra (1914-1918), Bukowski passou infância e adolescência entre a ascensão da indústria da diversão na Costa Oeste e a Grande Depressão. Sua infância, narrada em seu livro “Misto Quente” (1982) foi dividida entre a descoberta da literatura e os safanões do pai. O jovem Hank celebrou sua entrada na vida adulta com um soco na cara do pai, que ao apanha-lo passando mal bêbado, quis esfregar-lhe o rosto no assoalho. Mas o pior de seus pesadelos começaria a se manifestar logo depois. Pouco antes de entrar para o exército e sair definitivamente da casa dos pais, Bukowski trava uma torturante batalha contra a acne vulgaris, que lhe provocaria tumores e manchas pelo corpo, atacando em cheio sua autoestima. Tão dolorosas quanto a acne eram as agulhas usadas no tratamento, ainda primário, das erupções.

Livre do exército e já craque no copo, Charles Bukowski ruma para a costa leste e o meio-oeste americano, para cidades como Boston e Chicago, onde perambula por sub-empregos e conhece sua primeira companheira, uma jovem alcoólatra que moldará os perfis de mulheres perfeitas e impossíveis em seus livros. De volta à Califórnia continua entregando seus anos dourados de juventude ao alcoól e aos trabalhos de meio período, que lhe permitem sobreviver, escrever de forma não profissional e encher a cara. Estórias envolvendo esses anos são compiladas em “Factotum” (1975).

Na ânsia de continuar mantendo o estilo de vida, arruma um emprego nos correios. As jornadas e plantões infernais vividos nos porões do suntuoso prédio do US Mail são relatados em “Cartas na Rua” (1971). Em uma biblioteca ao lado do serviço, Bukowski encontra um exemplar de “Pergunte ao Pó” do judeu itáloamericano John Fante. Decide ali cair de vez nas graças da escrita, enviando material à editoras. Assina com a Black Sparrow, sua primeira e única editora. Anos mais tarde Bukowski praticamente a obrigaria a também assinar com Fante, já cego pelo diabetes e há muito afastado da literatura.

A Califórnia de Charles Bukowski não é a das garotas douradas de sol, nem das musas cinematográficas de Hollywood. Lugares como Beverly Hills ou Bel Air só pra alguma festa 0800. Nada dos pesadelos psicodélicos pincelados pelas cores das drogas de Thomas Pynchon e Hunter S. Thompson. É uma atmosfera claustrofóbica de guiar fuscas (impreterivelmente bêbado) pelas autoestradas, jogar conversa fora em balcões de bares fedendo à cerveja choca; becos onde bêbados vão brigar entre uma dose e outra, e onde cada bangalô e hotel barato parece guardar uma alma solitária à espera de que ao menos o senhorio pentelho venha bater-lhe à porta e dar um alô. É nesse universo que habita Henry Chinaski, alter ego de Bukowski, funcionário público de gênio estourado até o final do expediente, e mosca de bar no resto do tempo.

“Mulheres” narra aventuras e desventuras de Chinaski com suas namoradas, amantes, companheiras e também com as neuroses que acompanham o pacote completo. Diferente do Bukowski pueril de “Misto Quente” e do desconfiado porém afoito Hank de “Factotum”; “Mulheres” trás um Bukowski adulto, calejado pela vida, pelos excessos e raposa velha no universo feminino. Pai solteiro de uma filha, o escritor nunca a citou, nem qualquer outra criança, em suas obras.

Avesso aos beats, a quem erradamente é associado, passou a fazer palestras e leituras pelos EUA, que invariavelmente acabavam em tumulto, pois Bukowski bebeia para driblar a timidez e acabava por discutir e trocar ofensas com a platéia. No fim da vida, casado formalmente, aposentado dos correios, usufruindo dos ganhos como escritor, mudou-se para o extremo sul da Califórnia, onde, entre garrafas de vinho barato, faleceu em 1994, aos 73 anos de idade, de leucemia. Seus últimos delírios de vida estão em “O Capitão Saiu Para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio” (póstumo-1998).

Sobre odeiopassas

Leia aqui tudo que os jornais não querem me pagar para escrever pois dizem que ninguém ia querer ler.
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