Miami com Copacabana (ou Quatro Coringas Batutas)

Quando o famigerado “b-rock” viveu sua ressaca mercadológica, entre 1988 e 1993, alguns grupos continuaram cruzando guitarras elétricas e samba, baterias eletrônicas e ritmos regionais. Fiéis escudeiros da mistura começada com nomes como Mutantes, Novos Baianos e Alceu Valença, esses grupos, apesar do fracasso de vendas e do ostracismo, acabaram sendo a ponte para artistas vindouros como Raimundos, o povo do Manguebeat e afins. Abaixo, quatro elementos dessa fase:
 
 
Black Future – Tantão e Satanésio eram figuras fáceis da cena da Lapa carioca do início dos anos 80. Frequentando o Circo Voador (o stage dive suicida no clip de “Vital e Sua Moto”, dos Paralamas, é de autoria de Satanésio), bebendo nos botequins da rua do Riachuelo e alimentando as ideias com No Wave americana e Post Punk inglês acabaram montando o duo Black Future em 1984. Baterias eletrônicas emulando batidas de samba, vocal declamado e letras com colagens urbanas onde se misturavam Joãozinho Trinta, João do Rio e Lóki, o malvado irmão de Thor, a dupla virou sucesso de crítica, mas nunca caiu pra valer no gosto da massa. O “one hit wonder” da banda, “Eu Sou o Rio”, acabou anos depois sendo mais conhecido e lembrado pelos versos de “Fazendo a Sua Cabeça”, do Planet Hemp.

 
 
Picassos Falsos – Mais carioquices, dessa vez vinda da Tijuca, mas tendo a malandragem da Lapa como fundo. As composições de Humberto Effe e cia transitavam entre boleros, Noel Rosa, Tim Maia (tijucano ilustre), travestis, navalhas, Echo & The Bunnymen, baião, universo Marvel, Hendrix e coisas estreitamente ligadas ao cotidiano dos cariocas como o carnaval, as chuvas de verão e a favela. “Quadrinhos”, do primeiro trabalho dos PF (de 87), foi parar na trilha de “Armação Ilimitada”, o que deu um fôlego para que a banda ainda lançasse “Supercarioca” (título tirado de um verso da canção “Magrelinha”, de Luiz Melodia), clássico absoluto do quarteto. O guitarrista Gustavo Corsi virou side man requisitado ao lado de artistas como Marina Lima, Gabriel O Pensador e Fernanda Abreu. Humberto Effe lançou um trabalho solo e dividiu parcerias com Fausto Fawcett, Dado Villa-Lobos e Tony Platão. Em 2008, vinte anos depois de “Supercarioca”, sai “Mundo Novo”, uma tentativa de reinserir a banda num cenário que ela própria ajudou a criar, mas que nunca chegou a usufruir.

 
Fellini – O nome vem de um disco dos Stranglers e o termo “low profile” não existia, mas é bem provável que tenha sido inventado por eles, e para eles. A formação girava em torno da dupla Cadão Volpato (hoje apresentador da TV Cultura), do multiinstrumentista Thomas Pappon (atualmente em Londres, na BBC Brasil), de uma bateria eletrônica rudimentar e um estúdio portátil de 4 canais (em K-7), juntos fazendo uma leitura própria de samba ressaltando um certo clima sorumbático, letras surreais e meio cinematográficas (única coisa que os remeteria ao cineasta italiano). Isso acabou por fazer o Fellini cair nas graças da imprensa especializada e dita antenada; assim entre 1984 e 1988 lançaram quatro discos independentes, que, paradoxalmente, foram fazer a cabeça da garotada do outro lado do país, no Recife (o resto é história). Decretado um hiato em 1990, Cadão ficaria, ainda no núcleo “flutuante” do Fellini, com o Funziona Senza Vapore, e Thomas continuaria envolvido na música com o projeto The Gilbertos. A dupla voltaria a trabalhar junta em 2002, lançando “Amanhã é Tarde” e reunindo-se aqui e ali para shows esporádicos.

Vzyadoq Moe – Vindos de Sorocaba, a “Manchester brasileira”, criaram um híbrido de guitarras, uma bateria de latas e chapas metálicas e letras claustrofóbicas remetendo ao simbolismo de autores como o paraibano Augusto dos Anjos. Joy Division e A Certain Radio encorporados a um afrobeat herdado dos terreiros de umbanda. Lançaram um disco pelo finado selo Wob Bop (que também trabalhou na mesma época com Fellini e Violeta de Outono). Ensaiaram um retorno no início do novo milênio, mas nunca sairam da prateleira do “cult”.

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